"O que andamos a ler?", é o titulo dado pela Maria(dona do blogue "Ninhos em Banho-Maria"), ao desafio que lançou aos seus amigos blogueres e seguidores.
Este desafio, como ela mesmo explica no seu blogue, consiste em divulgarmos, nos nossos blogues, as leituras que formos fazendo.
Ora, eu como adoro ler, decidi aderir a este desafio, e além do mais pareceu-me que será interessante e que permitirá a troca de ideias e a divulgação de sugestões de leitura. Como tal, deixo aqui também o repto aos meus seguidores: partilhem também, nos vossos blogues, as leituras que andam a fazer.
Ora, o livro que irei partilhar nesta minha primeira resposta ao desafio não é o que ando a ler, mas foi um que li anteriormente e do qual gostei muito. Intitula-se "Evangelho Segundo Jesus Cristo" e é da autoria daquele que, para mim, é um dos melhores escritores, José Saramago.
Neste livro, o autor conta-nos a vida de Jesus de uma forma moderna, anti-religiosa. É um relato que em nada tem a ver com o que nos é descrito no Evangelho religioso. É um relato que humaniza a vida de Cristo, que o apresenta como um simples ser humano. (“O filho de José e Maria nasceu como todos os filhos dos homens, sujo do sangue de sua mãe, viscoso das suas mucosidades e sofrendo em silêncio. Chorou porque o fizeram chorar, e chorará por esse mesmo e único motivo.”)
Esta é uma das várias passagens que mais me chamaram a atenção:
“Mas foi Pastor [o Diabo] quem falou, Tenho uma proposta a fazer-te, disse, dirigindo-se a Deus, e Deus, surpreendido, Uma proposta, tu, e que proposta vem a ser essa, o tom era irónico, superior, capaz de reduzir ao silêncio qualquer que não fosse o Diabo, conhecido e familiar de longa data. Pastor fez um silêncio, como se procurasse as melhores palavras, e explicou, Ouvi com grande atenção tudo quanto foi dito nesta barca, e embora já tivesse, por minha conta, entrevisto uns clarões e umas sombras no futuro, não cuidei que os clarões fossem de fogueiras e as sombras de tanta gente morta, E isso incomoda-te, Não devia incomodar-me, uma vez que sou o Diabo, e o Diabo sempre alguma coisa aproveita da morte, e mesmo mais do que tu, pois não precisa de demonstração que o inferno sempre será mais povoado do que o céu, Então de que te queixas, Não me queixo, proponho, Propõe lá, mas depressa, que não posso ficar aqui eternamente, Tu sabes, ninguém melhor do que tu o sabe, que o Diabo também tem coração, Sim, mas fazes mau uso dele, Quero hoje fazer bom uso do coração que tenho, aceito e quero que o teu poder se alargue a todos os extremos da terra, sem que tenha de morrer tanta gente, e pois que de tudo aquilo que te desobedece e nega, dizes tu que é fruto do Mal que eu sou e ando a governar no mundo, a minha proposta é que tornes a receber-me no teu céu, perdoado dos males passados pelos que no futuro não terei de cometer, que aceites e guardes a minha obediência, como nos tempos felizes em que fui um dos teus anjos predilectos, Lúcifer me chamavas, o que a luz levava, antes que uma ambição de ser igual a ti me devorasse a alma e me fizesse rebelar contra a tua autoridade, E por que haveria eu de receber-te e perdoar-te, não me dirás, Porque se o fizesses, se usares comigo, agora, daquele mesmo perdão que no futuro prometerás à esquerda e à direita, então acaba-se aqui hoje o Mal, teu filho não precisará de morrer, o teu reino será, não apenas esta terra de hebreus, mas o mundo, o universo, por toda a parte o Bem governará (…), Lá que tens talento para enredar almas e perdê-las, isso sabia eu, mas um discurso assim nunca te tinha ouvido, um talento oratório, uma lábia, não há dúvida, quase me convencias, Não me aceitas, não me perdoas, Não te aceito, não te perdoo, quero-te como és, e, se possível, ainda pior do que és agora, Porquê, Porque este Bem que eu sou não existiria sem esse Mal que tu és, Um Bem que tivesse de existir sem ti seria inconcebível, a um tal ponto que nem eu posso imaginá-lo, enfim, se tu acabas, eu acabo, para que eu seja o Bem, é necessário que continues a ser o Mal, se o Diabo não vive como Diabo, Deus não vive como Deus, a morte de um seria a morte do outro, É a tua ultima palavra, A primeira e a ultima (…). Pastor encolheu os ombros e falou para Jesus, Que não se diga que o Diabo não tentou um dia a Deus (…).”
Um comentário:
Primeiro, muito obrigada pela tua disposição. Gostei muito!
=)
Ainda bem que gstaste da ideia...
Em segundo. Tb gosto muito de Saramago...e este livro tb faz parte das minhas estantes.
Acho que muitas passagens nao devem ser levadas a "peito", relativizadas...afinal o autor so nos quer contar uma historia de uma outra maneira. Foi um livro que me custou um pouco a ler...mas que la foi!
um beijinho grande, emais uma vez obrigada
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