Escrever sempre foi, para mim, uma forma de descarregar sentimentos, de os deitar cá para fora como não o sei fazer de outra forma, porque as palavras não me saem tão certas quando são ditas, porque o coração se solta quando me sento e pego num lápis ou numa caneta ou quando simplesmente escrevo tudo o que me vem à cabeça e descarrego frustrações, pensamentos, loucuras, ambições, nas teclas do computador.
Quando verbalizo, quando falo, há sempre algo que fica por dizer, há sempre qualquer coisa que não foi transmitida na medida certa, que é dito como descargo de sentimentos e me sai com mais ou menos ênfase do que seria certo, do que seria aconselhado. Quando falo, demoro muito a dizer o que quero. O meu maior problema é falar de sentimentos! Sei muito bem como expressar as minhas resmunguices, os meus pontos de vista, as minhas razões, mas quando é para falar de sentimentos, dêem-me, por favor, um papel e uma caneta e ficará perfeito, se for para falar bem, para elogiar, ou então, será doloroso de ler, se for para criticar, se eu não aprovar, se não fizer parte dos meus valores.
Houve um tempo em que me fartei de sofrer dramaticamente, como também é muito meu hábito, e então decidi que não me iria importar com nada, que não ia mais deixar que me roubassem pedaços, porque estava a ficar um caco. Estive muito tempo sem escrever nada, nem mesmo parvoíces, nem mesmo daquelas coisas que escrevo e guardo para mim ou então nem sequer guardo, porque nada faz sentido, porque só estava a precisar de falar comigo própria. Estive, durante quase esse mesmo tempo, sem falar com ninguém sobre o que me ia acontecendo, porque, achava eu, a minha estratégia estava a resultar e eu não me estava a deixar abalar por nada.
Há pouco tempo dei por mim com a minha muralha a cair por terra com um pequeno embate, e quando me vi, desfeita em pedaços, quase sem nada ao que me agarrar é que percebi que as coisas são para serem sofridas quando acontecem. Depois de sofridas, resolvidas e, finalmente, esquecidas. Não são para serem ignoradas, para se fazer de conta que não nos atingem, que não nos ferem e fazem dor!
Ja aprendi que a estratégia passa por não pôr tudo de mim em todas as coisas, mas só nas que valem a pena, nas que não nos fazem sofrer e que só assim se pode evitar sofrimentos, mas que, mesmo que a gente se engane e essas coisas nos tragam coisas más, é lidar com elas de frente e nunca fugir, porque elas acabam sempre por nos apanhar de uma maneira ou de outra.
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