quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Fragmentos de Sabedoria e Inteligência (17)

Este é um excerto retirado de uma entrevista feita a José Saramago, que tem sempre a sabedoria de saber traduzir com as palavras os sentimentos que lhe assombram a alma. 

Enfim, como é o retrato do poeta enquanto jovem aos 80 anos?

Sou uma pessoa feliz e ao mesmo tempo infeliz, ou pelo menos não tão feliz assim. Porque vivo neste mundo, vivemos todos, num mundo que não devia ser o que é. Não só injusto, mas cruel. Não percebo como é que após séculos, milénios até, de estudo, de cultura, ciência, arte, filosofia, de todas as maravilhas que ficaram por aí, somos esta espécie absolutamente desprezível. Neste sentido, desprezo-me a mim mesmo por lhe pertencer. Ah!, tem gente maravilhosa, tem heróis, tem santos… Tem, mas como não são eles que governam o mundo… A bondade hoje é alguma coisa que dá vontade de rir! E isso (basta-me pegar num jornal, saber o que se passa no mundo) dá-me um mal-estar todos os dias… Por isso, podemos dizer que esta casa é uma pequena ilha de harmonia onde vivem pessoas que estão bem e de bem uma com a outra; mas o mundo lá fora… Há quem vá vivendo conformado, ou dizendo que não pode fazer nada; outros, porém, em que, quase dá vontade de dizer: desgraçadamente, me incluo, não se conformam.

[Os seus livros] dão prazer e obrigam a pensar?

(…) o que é feito das grandes esperanças, da felicidade, da fraternidade universal? E o que é que se faz no sentido de modificar séria e responsavelmente tal situação? Por mim, escrevo porque me preocupo com umas quantas coisas fundamentais e penso que tenho de dizer. (…) A nossa vidinha não tem importância nenhuma, é preciso pensar em coisas maiores e mais importantes do que nós.

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