Passou-se um ano letivo inteirinho e foram dois os únicos livros que li. Minto, foi só um livro e meio. Em relação ao primeiro já me pronunciei nesta rubrica, do segundo ainda não o terminei a leitura, mas agora não foi por falta de tempo, foi porque comecei a ler um outro que comprei há já algum tempo e fui-me esquecendo deste.
Amor de Perdição era um dos muitos livros que andava na minha lista “futuras leituras” e tinha dele ótimas referências da minha professora de Português, que tantas vezes sugeriu que o lêssemos para apresentar nas aulas. Pois bem, retomada agora a leitura, decidi mostrar-vos alguns excertos deste livro que nos conta um amor ao estilo de “Romeu e Julieta”. Uma boa sugestão, sem dúvida para a vossa lista de “futuras leituras”.
“Os poetas cansam-nos a paciência a falarem do amor da mulher aos quinze anos, como paixão perigosa, única e inflexível. Alguns prosadores de romance dizem o mesmo. Enganam-se ambos. O amor aos quinze anos é uma brincadeira; é a última manifestação do amor às bonecas; é a tentativa da avezinha que ensaia o voo fora do ninho, sempre com os olhos fitos na ave-mãe, que está da fronde próxima chamando: tanto sabe a primeira o que é amar muito, como a segunda o que é voar para longe.
[…]
Era máxima sua que o amor, aos quinze anos, carece de consistência para sobreviver a uma ausência de seis meses. Não pensava errado o fidalgo, mas o erro existia. As excepções têm sido o ludíbrio dos mais assisados pensadores, tanto no especulativo como no experimental.
[…]
É preciso que te deixes cegamente levar pela mão de teu pai. Logo que deres este passo difícil, conhecerás que a tua felicidade é daquelas que precisam de ser impostas pela violência. Mas repara, minha querida filha, que a violência dum pai é sempre amor. Amor tem sido a minha condescendência e brandura contigo. Outro teria subjugado a tua desobediência com maus tratos, com os rigores do convento, e talvez com o desfalque do teu grande património. Eu, não. Esperei que o tempo te aclarasse o juízo, e felicito-me de te julgar desassombrada do diabólico prestígio do maldito que acordou o teu inocente coração. Não te consultei outra vez sobre este casamento, por temer que a reflexão fizesse mal ao zelo de boa filha com que vais abraçar o teu pai, e agradecer-lhe a prudência com que ele respeitou o teu génio, velando sempre a hora de te encontrar digna do seu amor.”
Autor: Camilo Castelo Branco
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