Lembro-me exatamente do início. Lembro-me do lugar onde estava sentada, das pessoas com quem estava, das pessoas que traziam uma folha e uma caneta na mão, e da pergunta que nos fizeram.
Não sabia se gostava ou não daquele desporto, mas ele não me era indiferente quando o praticávamos nas aulas de educação física e, quando me ofereceram a oportunidade de o praticar, não hesitei.
Dizem que quando se ama, não se conta nem se olha aos sacrifícios que, por vezes, se tem que fazer. Dizem também que quem corre por gosto não cansa.
Hoje é domingo e quando entro no carro com os meus primos e os meus tios, para irmos para a estação apanhar o autocarro, porque são horas de partir rumo a Vila Real, queixo-me que estou exausta, que queimei um joelho, esfolei um cotovelo, me doem as costas ou que me dói o corpo todo e estou cheia de nódoas negras e dores que desconhecia até ao dia em que me atirei “à maluca” para tentar chegar a uma bola. As palavras deles são sempre as mesmas, ditas de forma carinhosa, de quem demonstra preocupação: “Oh minha filha, tu tens que ver a tua vida, isso rouba-te muito tempo, andas sempre magoada e cansada, não aproveitas o fim-de-semana para cuidares das tuas coisas…”
Hoje é quinta-feira, cheguei às 5horas a casa, depois de ter partido no domingo, e abraço o Gui, pergunto pelas novidades de casa à minha madrasta, desfaço a mala e vou para o treino sem ver o meu pai e o meu irmão. Quando chego a casa, o meu pai pergunta-me sempre para onde fui, diz-me que nunca estou em casa, que ando sempre no futebol [sim, ele ainda não sabe bem o que é que eu jogo], que só perco tempo, porque o meu futuro não vai ser a andar em treinos e jogos e bla bla bla. Hoje estou cansada e ainda há trabalhos para adiantar, porque a sexta-feira é sempre o corre corre das arrumações e o fim-de-semana está já todo planeado e ocupado.
Hoje é sexta-feira, e saí um bocadinho à noite para pôr a conversa em dia com as minhas amigas, porque estava a morrer de saudades delas, mas há qualquer coisa que não me sai da cabeça, há qualquer coisa a incomodar-me. Como são minhas amigas, partilho com elas o que me está a preocupar e a ocupar a cabeça e elas dizem-me: “tu devias era preocupar-te menos com isso”; “está na altura de cuidares de ti, olha no estado em que estás”; Dão-me muitas vezes na cabeça por fazer o que faço, e que apesar de saberem o que jogar significa para mim, dizem-me que estão preocupadas comigo. Vim para casa a pensar no que elas me disseram…
Hoje é sábado e toda a gente gosta de dormir aquele bocado que não dorme durante a semana. Às 9horas toca o despertador e antes de ir para o treino o meu quarto fica arrumado. São 12h30m quando chego a casa, e a pergunta é a mesma de quinta-feira, o discurso, mais ou menos sério, é o mesmo também. Lá almoço enquanto lhe tento explicar que gosto do que faço e que dou conta do que tenho para fazer, para ele não ficar preocupado, mas estou já cansada de ouvir e repetir sempre o mesmo e acabo por optar por nem ouvir nem responder. No fim de almoço sei que tenho que arrumar a cozinha, que tenho que ficar com o Gui de tarde, que tenho que ter em atenção as horas porque ainda tenho que ir à missa no final da tarde. Chego ao fim do dia e tenho que fazer os trabalhos que trouxe para o fim-de-semana, porque amanhã já é domingo outra vez e há jogo.
Hoje é já domingo, penso eu quando acordo! Fogo lembrei-me que tenho que fazer a mala e ajudar a fazer o almoço para sair enquanto eles ainda acabam de almoçar, porque o jogo é longe. “Fogo”, penso eu outra vez, porque me lembrei que tenho que levar já a mala comigo porque não volto a casa! “Poças” – mentira, desta vez veio-me à cabeça um palavrão, mas é melhor não o explicitar – penso desta vez, porque me lembrei que não venho a casa no próximo fim-de-semana e custa-me imenso não aproveitar esta tarde, já que não aproveitei os outros dias por andar sempre a correr.
Hoje houve problemas dentro da equipa… hoje faltaram pessoas ao treino só porque sim… hoje senti-me das poucas a lutar por aquilo que fazemos… hoje vieram descarregar em mim coisas que não sou eu que devia ouvir… hoje pediram-me ajuda… hoje pediram-me opiniões… hoje tive que ter uma conversa séria com a equipa… hoje foi impossível não chorar no fim do jogo…
“Ao fim-de-semana gosto tanto de dormir mais um bocadinho”, dizem-me os meus amigos. “Nunca tens tempo para mim, tens sempre coisas para fazer” queixa-se um amigo, um tio, um primo. “Tu não tens mais nada para fazer? Pensas que é o voleibol que te vai dar de comer depois? Não estudes, não” diz-me o meu pai. “Oh rapariga andas sempre a correr e vens sempre aleijada desses jogos, depois quando fores mais velha vais sofrer tanto por causa dessas pancadas que tu dás quando cais”, dizem-me os meus tios. “Hoje notava-se que estavas exausta, vê se descansas” ou então “Estou preocupada contigo, ninguém aguenta assim tanta coisa” dizem-me as pessoas que me são mais próximas e me conhecem bem.
É difícil andar um ano inteiro a ouvir estas coisas quando aquilo que se está a dar não está a ser recompensado. É difícil continuar a achar que se suporta tudo o que for preciso, é difícil não pensar em desistir.
Nunca, até este ano, tinha questionado o que é que andava a fazer no volei. Nunca precisei de pesar os prós e os contras. Nunca me apeteceu menos do que 80% treinar.
Este ano questionei-me em 70% dos treinos se deveria continuar ou não. Analisei ao pormenor 60% dos sacrifícios que tive que fazer. Pesei quinze mil vezes os prós e os contras de desistir ou não. Chorei mil vezes por causa do voleibol e sorri quinhentas vezes, se tanto. Não foi fácil aguentar, mas a verdade é que hoje é já dia 13 de Julho e só não treinei porque estamos de férias.
Há dias, ao vir para casa depois de um dia inteiro a jogar voleibol, estava a lembrar-me das vezes que já viajei com aquelas mesmas pessoas, das alegrias que já partilhamos, das tristezas também, e questionava-me se iria querer ter outro ano como este, e no meio desse turbilhão de emoções, cheguei à conclusão que era normal e aceitável estar cansada. No entanto, não tinha certezas da verdade dessa conclusão mas tive-as depois de ver a mão estendida de alguém que estava a ouvir-me enquanto eu pensava alto.
Agora já para o fim, apercebi-me do porquê de este ano me ter custado imenso suportar: foi porque tive que me desdobrar mil vezes, porque tive que perder horas de sono para dar conta de tudo o que tinha para fazer, porque tive que fazer escolhas difíceis e abdicar de muitos momentos de diversão, porque tive que aguentar muitas dores e muito cansaço e fingir que estava tudo bem, mas foi principalmente, porque não tive o apoio que precisava, porque quando se tem que fazer sacrifícios, quando se fazem opções em prol de uma coisa que amámos e abdicámos de outras, isso, por si só, já é penoso para nós, mas mais difícil se torna, ou até mesmo insuportável, se nos estiverem sempre a dar na cabeça e não recebermos o apoio de quem está mais próximo de nós e de quem mais precisámos.
A minha aventura enquanto líder de uma equipa terminou e chego ao fim da época sem me arrepender de nada nem de nenhuma escolha que fiz, mas com a certeza de que não voltaria a fazê-las, porque vou ter que aprender que não, não se dá tudo o que temos só porque se ama, como se diz por aí, porque depois, quando acaba, tudo o que demos vai junto também e com o que é que ficamos de inteiramente nosso?