terça-feira, 12 de outubro de 2010

O que andamos a ler (3)

Tenho tantas saudades de ter tempo para isto: para ler! Quando tenho tempo estou tão cansada que não me consigo concentrar na leitura de nada. Ainda bem que tenho guardadas citações de livros que li e que sempre vai dando para reler uma ou outra coisinha de vez em quando.
Hoje deu-me uma especial saudade de ler Saramago. Já sinto mesmo falta de ler qualquer coisa dele e então vasculhei nas citações que tenho guardadas e encontrei um excerto que mostra bem o que Saramago sabia fazer de melhor: criticar usando, para isso, a ironia. Fantástico!

“Olhe que nós, por cá, também não vamos nada mal em pontos de confusão entre o divino e o humano, parece-me até que voltamos aos deuses da antiguidade, Os seus, Eu só aproveitei deles um resto, as palavras que os diziam, Explique melhor essa tal divina confusão e humana confusão, É que, segundo a declaração solene de um arcebispo, o de Mitilene, Portugal é Cristo e Cristo é Portugal, Está aí escrito, Com todas as letras, Que Portugal é Cristo e Cristo é Portugal, Exactamente. Fernando Pessoa pensou alguns instantes, depois largou a rir (…), Ai esta terra, ai esta gente, e não pôde continuar, havia agora lágrimas verdadeiras nos seus olhos, Ai esta terra, repetiu, e não parava de rir, Eu a julgar que tinha ido longe de mais no atrevimento quando na Mensagem chamei santo a Portugal, lá está, São Portugal, e vem um príncipe da Igreja, com a sua arquiepiscopal autoridade, e proclama que Portugal é Cristo, E Cristo é Portugal, não esqueça, Sendo assim, precisamos de saber, urgentemente, que virgem nos pariu, que diabo nos tentou, que judas nos traiu, que pregos nos crucificaram, que tumulo nos esconde, que ressurreição nos espera, Esqueceu-se dos milagres, Quer você maior milagre que este simples facto de existirmos, de continuarmos a existir, não falo por mim, claro, Pelo andar que levamos, não sei até quando e onde existiremos […]”


Nota - conversa entre Ricardo Reis e Fernando Pessoa
Retirado da obra - O Ano da Morte de Ricardo Reis

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