Daniel Oliveira: Quantas vidas tem?
Marina - Só uma e dá-me imenso trabalho. A vida é uma coisa bonita, mas dá trabalho para ser vivida.
O que é que é mais difícil?
Lidar com a frontalidade, lidar com a mediocridade, lidar com a incompetência… Por outro lado, é maravilhoso ver o sol nascer, levarmos com o vento, ver o mar… há muita coisa boa, mais coisas boas do que más, eu acho!
Dizem, não sei se é verdade, a marina dir-me-á, tem mau feitio...
Eu acho que a maior parte das pessoas que diz isso não me conhece de facto. O meu mau feitio escora-se logo quando as pessoas me conhecem. Eu sou uma pessoa muito rigorosa, eu gosto muito da disciplina quando trabalho, gosto de educação, gosto de pontualidade e esse rigor, às vezes, incomoda, daí dizerem que eu tenho mau feitio.
As pessoas tem que saber o que querem na vida. Uma pessoa que se esconde, que pensa muito para não dizer o que acha, o que é correto, ou que pensa. Ou uma pessoa como eu, que diz o que pensa independentemente dos prejuízos ou das consequências que possa vir a ter.
Conviveu smp bem com as decisões que tomou ao longo da vida?
Sim, sempre muito bem. Aliás, é isso que me leva a pensar que não estou tão errada quanto isso, porque consigo dormir com muita tranquilidade e olho-me ao espelho com algum orgulho enquanto ser humano, enquanto pessoa.
Para mim, o palavrão, às vezes é mais um desabafo, uma palavra, construída com letras, não tem aquele significado tão mau quanto às vezes fazem parecer. (isto surgiu no seguimento de uma pergunta que não tenho anotada qual foi)
E é libertador?
É muito libertador, é mais libertador, mais saudável, alivia mais do que dizer “chiça”.
Nunca perdeu as forças?
Acho que sim, várias vezes. Por pouco tempo… à noite e tal, penso: não vou perder as forças, amanhã acordo melhor. Eu vergo, mas não torço, a não ser que me caia um tijolo. Eu não tenho do que me queixar, a vida tem sido maravilhosa comigo e há períodos menos agradáveis mas há gente em muito piores circunstancias. Nós queremos sempre mais, e eu não quero muito mais, estou muito bem como estou e se tiver que ter menos também terei, portanto, as futilidades a mim interessam-me pouco, nunca fui uma pessoa de ostentação e estou de muito bem com a vida. Obviamente, como qualquer ser humano, há coisas que nos magoam e que às vezes nos apanham em períodos de mais frágeis e precisamos de um carinho, de uma força, de um abraço, mas não é por aí que eu vou andar tristezinha, não, nada disso!
- É preciso uma generosidade imensa?
- Acho que Não!
- Não?
- Não. Isso acho que é o nosso grave defeito enquanto pessoas: acharmos que determinadas atitudes é ser bonzinho, não, isso é a nossa obrigação! eu acho que isso é uma coisa que deveria estar, quando acordamos, isso é natural, o anormal é o contrário. O normal é nós termos a consciência de que não podemos mudar o mundo: eu não posso dar comida a toda a gente que tem fome, não posso melhorar a vida a toda a gente, mas se cada um de nós pensar que aqui ao lado há uma pessoa, isto é tudo tão simples, não é nada de espantoso, acho que é tão básico. Essa coisa de ser generoso, não, não sou nada generosa, sou uma pessoa com defeitos, com virtudes, só não sou indiferente. Eu acho que ninguém deveria ser indiferente a coisa nenhuma.
